Chamada de Trabalhos | Vol. 13, N.º 2 | Colonialismo e Espaço Público: Memórias em Disputa | De 10 de março a 15 de maio de 2026

2026-03-09

O colonialismo europeu costuma ser tratado como um período histórico, quer dizer, um capítulo com começo, meio, fim e fronteiras muito bem delimitadas. Contudo, uma análise mais atenta do fenômeno revela que o colonialismo se alastra para fora, para antes e para depois de si mesmo, com desdobramentos, ecos e legados que emergem após o suposto encerramento deste capítulo. Trata-se de um corpo de silhueta imprecisa e mutante que pode ser visto ainda hoje, convivendo com festas de independência que comemoram o fim oficial desse projeto (Mbembe, 2017).

É claro que o colonialismo tem consequências, que emergem tardiamente, após o suposto desaparecimento dos episódios que originaram tais resultados. Mas, quando dizemos que o colonial está entre nós — ou nós é que estaríamos entre ele, cercados por ele? — não nos referimos apenas a essas ondas, mas ao seu epicentro, ao marco zero de onde elas reverberam. Em outras palavras: não são só as consequências do colonialismo que se marcam em nossos dias, mas o colonialismo propriamente dito está aqui, agora.

O espaço público de antigas potências coloniais europeias e dos territórios que elas invadiram é marcado por um conjunto de traços simbólicos e materiais que remetem ao colonialismo: são monumentos, estátuas, edifícios, praças, ruas, bairros e toda sorte de equipamentos urbanos que, mais do que referir, celebram e afirmam a expansão colonial europeia e os seus legados (Peralta & Domingos, 2023). Parte desses traços foram construídos durante o período colonial e sobreviveram após o acreditado encerramento desse capítulo histórico, permanecendo no espaço público não por inércia ou esquecimento, mas por um ativo e deliberado trabalho de manutenção e atualização desses objetos e da façanha que exaltam. Entretanto, para além dessas reminiscências, cuja perpetuação até nossos dias é tudo menos acidental, é possível elaborar um extenso inventário de honrarias ao colonialismo erguidas após o fim oficial desse evento, quando pensávamos que a condenação desse empreendimento estava pactuada e pacificada (Guardião et al., 2022; Knudsen et al., 2021/2022).

Todavia, se essas reverências petrificadas são sempre visíveis, o mesmo não pode ser dito acerca da violência e da exploração inerentes ao projeto colonial europeu. Dito de forma explícita: os traços materiais e simbólicos persistem, mas a referência ao colonialismo não, ou não necessariamente. Nesses casos, menos do que figuras soltas recortadas contra a paisagem, esses totens coloniais se tornam a paisagem propriamente dita: escondida porque explícita, camuflada em sua onipresença.

Nos últimos anos, entretanto, ações diretas contra traços coloniais tornaram-se cada vez mais frequentes. Pululam notícias de derrubadas ou descaracterizações de estátuas, demandas por alterações na toponímia urbanas, abaixo-assinados pedindo a inauguração de placas informativas e campanhas voltadas à criação de anti- e contra-monumentos. Impulsionadas por grupos que visam o resgate de memórias até então invisibilizadas nas narrativas oficiais, tais ações não se dão sem encontrar resistências. Em resposta, erguem-se vozes que se apresentam como guardiãs dos valores, mitos e ideias propagadas por esses símbolos e que podem ser ouvidas nos mais diferentes setores da sociedade: do poder público, passando por associações formais, chegando até a grupos clandestinos de extrema-direita. O que anima essas posições antagônicas a entrar em confronto não é apenas nostalgia ou o saudosismo, mas um interesse pragmático em agendas candentes do século XXI, dado que a memória colonial — sempre em disputa — é estrategicamente instrumentalizada como uma instância de legitimação de discursos acerca de questões do presente (Haraway, 2013; Hobsbawm & Ranger, 1983; Quijano, 2000), principalmente no que se refere à migração e aos direitos de pessoas racializadas (Mbembe, 2017). Colocando em termos weberianos, há uma luta pelo monopólio da definição legítima do significado do colonialismo e, longe de ser um fim em si mesmo, esse confronto é uma parte de um todo formado por outros confrontos travados em torno da definição de outros conceitos: dizer o que é colonialismo é dizer o que é migração e, em última instância, é dizer o que é a Europa.

 

Objetivo do Número Temático

Esta chamada convoca artigos que discutam a relação entre colonialismo, espaço público e memória evidenciando de que maneira esses debates e ações se inscrevem em dinâmicas de disputa de poder entre narrativas dominantes e contra-hegemônicas. Procuram-se análises que considerem as controvérsias e conflitos em torno de traços coloniais no espaço público, bem como as respostas formuladas pelo poder público e pela sociedade civil, em diferentes contextos nacionais e políticos. Pretende-se também promover reflexões críticas sobre os modos pelos quais traços materiais do passado colonial são mobilizados e ressignificados por distintos atores sociais, passando a operar como plataformas para a articulação de discursos progressistas e/ou conservadores em torno de questões do presente.

 

Temas Sugeridos

São esperados trabalhos teóricos e empíricos, gerais, baseados em estudos de caso específico, comparativos e decorrentes de intervenções artísticas oriundos de diferentes áreas das humanidades, ciências sociais, artes e atividades criativas: comunicação, sociologia, antropologia, ciência política, história, geografia, estudos culturais, filosofia, arquitetura, urbanismo, patrimônio, linguagens artísticas e áreas afins, explorando questões como:  

  • Artivismo e memória colonial
  • Afinidades e tensões entre ativistas, artistas, sociedade civil, acadêmicos e poder público
  • Conflitos entre memória oficial e memórias alternativas
  • Espaço público entre memórias hegemônicas e contra-hegemônicas
  • Políticas de gestão, tombamento e patrimonialização de espaços públicos coloniais e suas controvérsias
  • Teorias, conceitos e debates anticoloniais, pós-coloniais e decoloniais
  • Continuidades e rupturas entre teorias anti, pós, decoloniais e tradições teóricas mais canônicas

 

Referências

Guardião, A., Jerónimo, M. B., & Peixoto, P. (Eds.). (2022). Colonial echoes: Histories, heritages and memories (R. Matos, Trad.). Tinta-da-China.

Haraway, D. (2013). Situated knowledges. The science question in feminism and the privilege of partial perspective. In M. Wyer, M. Barbercheck, D. Cookmeyer, & H. Ozturk (Eds.), Women, science and technology (3.ª ed., pp. 455–472). Routledge. https://doi.org/10.4324/9780203427415

Hobsbawm, E., & Ranger, T. (Eds.). (1983). The invention of tradition. Cambridge University Press.

Knudsen, B. T., Oldfield, J. R., Buettner, E., & Zabunyan, E. (Eds.). (2022). Decolonizing colonial heritage: New agendas, actors and practices in and beyond Europe. Routledge. https://doi.org/10.4324/9781003100102. (Trabalho original publicado em 2021)

Mbembe, A. (2017). Critique of Black reason (L. Dubois, Trad.). Duke University Press.

Peralta, E., & Domingos, N. (Eds.). (2023). Legacies of the Portuguese colonial empire: Nationalism, citizenship and popular culture. Bloomsbury Academic.

Quijano, A. (2000). Coloniality of power, Eurocentrism, and Latin America. Nepantla: Views from South, 1(3), 533–580.

 

Período de submissão de propostas (manuscrito completo): de 10 de março a 15 de maio de 2026.

 

LÍNGUA

Os artigos podem ser submetidos em inglês ou português. Os artigos selecionados para publicação serão traduzidos para português ou inglês, respetivamente, devendo ser publicados integralmente nos dois idiomas.

 

EDIÇÃO E SUBMISSÃO

A Revista Lusófona de Estudos Culturais é uma revista académica de acesso livre, funcionando de acordo com exigentes padrões do sistema de revisão de pares e opera num processo de dupla revisão cega. Cada trabalho submetido será distribuído a dois revisores previamente convidados a avaliá-lo, de acordo com a qualidade académica, originalidade e relevância para os objetivos e âmbito da temática desta edição da revista.

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