Reconfigurações do lusotropicalismo em museus monumentais de países de língua portuguesa

Autores

  • Lilia Abadia Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Educação, Escola de Educação, Tecnologia e Comunicação, Universidade Católica de Brasília, Brasil http://orcid.org/0000-0003-3894-2573

DOI:

https://doi.org/10.21814/rlec.3109

Palavras-chave:

classificação de museus, museus monumentais, lusotropicalismo, museologia crítica, etnografia

Resumo

Este artigo tem como objetivo discutir os discursos da identidade nacional dos museus monumentais contemporâneos em países de língua portuguesa, mais precisamente no Brasil e em Portugal. Para tanto, propõe-se a (re)formular os modos de classificação dos museus com enfoque nas características institucionais dos museus e das exposições de longa duração. Adverte-se que a classificação de museus proposta neste artigo não é definitiva nem fixa. Trata-se, antes, de um exercício hermenêutico que visa deslindar as mudanças e acomodações nos discursos de identidade nacional presentes em diversas esferas das instituições museológicas. Assim, sustenta-se a ideia de que apesar de os museus serem instituições em constante evolução, capazes de se adaptar aos novos tempos, reinventar, e contribuir para a (re)criação das sociedades, eles também mantêm performances e discursos que reforçam as relações de poder nas representações nacionais. Fundamentalmente, os museus estão sempre negociando com representações e discursos nacionais hegemônicos. A natureza em constante transformação dos museus foi estudada a partir de uma ampla gama de perspectivas resultando em diferentes modos de interpretação e interrelação das suas complexas características. No entanto, em ambos os países, a revisão crítica dos aspectos culturais, sociais e políticos do lusotropicalismo não tem sido explorada em profundidade como um recorte de análise dos legados coloniais dos museus e suas exposições. Assim, propõem-se tipos de monumentalidade em três museus de língua portuguesa, primeiro articulando a revisão da literatura sobre lusotropicalismo e Museologia Crítica, para depois relatar parte da investigação etnográfica realizada em 2015.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

Abad García, E. (2018). Del campo a la selva, de la biografía al anonimato. El Museu Nacional de Etnologia (Lisboa) y su relación con la historia. A Contracorriente, 15(2), 62-92. Retirado de https://acontracorriente.chass.ncsu.edu/index.php/acontracorriente/article/view/1745

Abadia, L. (2019). Lusophone monumental museum: intersecting ‘Africa’ and ‘nation’ in identity discourses. Tese de Doutoramento, University of Nottingham, Nottingham, Reino Unido. Retirado de http://eprints.nottingham.ac.uk/56315/

Abreu, R. (1996). A fabricação do imortal: memória, história e estratégia de consagração no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco.

Anderson, B. (1991). Imagined communities: reflections on the origin and spread of nationalism. Londres, Nova Iorque: Verso.

Araujo, E. (2010). O Museu Afro Brasil. Comunicação & Educação, 15(1), 125-129. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9125.v15i1p125-129

Areia, M. L. R. d. (1986). A investigação e ensino da antropologia em Portugal após o 25 de Abril. Revista Crítica de Ciências Sociais,(18-19-20), 139-152.

Aronsson, P. (2012). Writing the museum. In J. Hegardt (Ed.), The museum beyond the nation (pp. 17-39). Estocolmo: Historiska museets förlag.

Barone, A. C. C. (2007). Ibirapuera: parque metropolitano (1926-1954). Tese de Doutoramento, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. Retirado de https://teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16133/tde-31052010-143819/pt-br.php

Barringer, T. & Flynn, T. (1998). Introduction. In T. Barringer & T. Flynn (Eds.), Colonialism and the object: empire, material culture and the museum (pp. 1-10). Londres: Routledge.

Bastide, R. (1957). Brasil: terra de contrastes. São Paulo: Difiel.

Bennett, T. (2018). Museums, nations, empires, religions. In T. Bennett (Ed.), Museums, power, knowledge: selected essays (pp.78-97). Londres: Routledge.

Brulon, B. (2020). Descolonizar o pensamento museológico: reintegrando a matéria para re-pensar os museus. Anais do Museu Paulista, 28(1), 1-30. https:// doi.org/10.1590/1982-02672020v28e1

Cabecinhas, R. (2007). Preto e branco. A naturalização da discriminação racial. Porto: Campo das Letras.

Carvalho, A. (2015). Diversidade cultural e museus no séc. XX: o emergir de novos paradigmas. Tese de Doutoramento, Universidade de Évora, Évora, Portugal. Retirado de http://hdl.handle.net/10174/17778

Carvalho, R. A. de & Pinto, A. C. (2018). The “everyman” of the Portuguese new state during the fascist era. In J. Dagnino; M. Feldman & P. Stocker (Eds.), The ‘new man’ in radical right ideology and practice, 1919-45 (pp. 131-150). Londres: Bloomsbury. Retirado de http://hdl.handle.net/10451/31737

Castelo, C. (1998). O modo português de estar no mundo: o lusotropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-1961). Porto: Afrontamento.

Chagas, M. de S. (2003). Imaginação museal: museu, memória e poder em Gustavo Barroso, Gilberto Fleyre e Darcy Ribeiro. Tese de Doutoramento, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

Collins, J.-M. (2010). Intimacy and inequality: nanumission and miscigenation in nineteenth-century Bahia (1830-1888). Tese de Doutoramento, University of Nottingham, Nottingham, Reino Unido. Retirado de http://eprints.nottingham.ac.uk/id/eprint/11801

Cubitt, G. (2011). Atrocity materials and the representation of transatlantic slavery. Problems, strategies and reactions. In L. Smith, G. Cubitt, K. Fouseki & R. Wilson (Eds.), Representing enslavement and abolition in museums (pp. 229-259). Nova Iorque: Routledge.

Edson, G. & Dean, D. (1994). The handbook for museums. Londres: Routledge.

Elias, H. (2004). Um espaço de representação: arte pública e transformações urbanas na zona ribeirinha de Belém. On the w@terfront, 6, 43-134. Retirado de https://www.raco.cat/index.php/Waterfront/article/view/216971

Fernandes, F. (1964). A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: FFCLUSP.

Freyre, G. (1933/1956). Casa-grande & senzala. Rio de Janeiro: Maia e Schmidt Ltda.

Freyre, G. (1940). O mundo que o Português criou. Rio de Janeiro: José Olympio.

Freyre, G. (1958). Integração portuguesa nos trópicos. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar. Centro de Estudos Políticos e Sociais.

Giebelhausen, M. (2011). Museum architecture: a brief history. In S. Macdonald (Ed.), A companion to museum studies (pp. 223-244). Chichester: Willey-Blackwell.

Gomes, Â. de C. (2014). O contexto historiográfico de criação do Museu Histórico Nacional: cientificidade e patriotismo na narrativa da história nacional. In A. Magalhães & R. Bezerra (Eds.), 90 anos do Museu Histórico Nacional em debate (1922-2012) (pp.14-30). Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional.

Gonzalez, L. (1985). The Unified Black Movement: a new stage in black political mobilization. In P.-M. Fontaine (Ed.), Race, class, and power in Brazil (pp. 120-134). Los Angeles: Center for Afro-American Studies – University of California.

Gouveia, H. C. (1997). Museologia e Etnologia em Portugal: instituições e personalidades. Tese de Doutoramento, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal.

Guimarães, A. S. (2004). Intelectuais negros e formas de integração nacional. Estudos Avançados, 18(50), 271-284. https://doi.org/10.1590/S0103-40142004000100023

Guimarães, A. S. (2006). Depois da democracia racial. Tempo Social, 18(2), 269-287. https://doi.org/10.1590/S0103-20702006000200014

Hanchard, M. (1994). Orpheus and power: the movimento negro of Rio de Janeiro and São Paulo, Brazil - 1945 -1988. Nova Jérsia: Princeton University Press.

Henning, M. (2005). Museums, media and cultural theory. Maidenhead, Nova Yorque: Open University Press.

Hooper-Greenhill, E. (2000). Museums and the interpretation of visual culture. Londres: Routledge.

Julião, L. (2014). Museus e a preservação do patrimônio no Brasil. In A. Magalhães & R. Bezerra (Eds.), 90 anos do Museu Histórico Nacional em debate (1922-2012) (pp. 173-186). Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional.

Knell, S. (2011). National museums and the national imagination. In S. Knell; P. Aronsson & A. B. Amundsen (Eds.), National museums: new studies from around the world (pp. 3-28). Londres: Routledge.

Latham, K. & Simmons, J. (2014). Foundations of museum studies: evolving systems of knowledge. Santa Barbara: Libraries Unlimited.

Le Goff, J. (1992). History and memory. Nova Iorque: Columbia University Press.

Leal, J. (2006). Antropologia em Portugal: mestres, percursos, tradições. Lisboa: Livros Horizonte.

Leal, J. (2016). A Antropologia em Portugal e o englobamento da cultura popular. Sociologia & Antropologia, 6(2), 293-319. https://doi.org/10.1590/2238-38752016v621

Lei Federal nº 10.639/03, de 9 de janeiro, República Federativa do Brasil.

Lourenço, E. (1972/2005). O labirinto da saudade: psicanálise mítica do destino português. Lisboa: Gradiva.

MAB, Museu Afro Brasil. (2016). Plano museológico. Retirado de http://www.museuafrobrasil.org.br/associa%C3%A7%C3%A3o/documentos-administrativos/documentos-institucionais

Macagno, L. (2002). Lusotropicalismo e nostalgia etnográfica: Jorge Dias entre Portugal e Moçambique. Afro-Asia, 28, 97-124. https://doi.org/10.9771/aa.v0i28.21045

Macdonald, S. (2003). Museums, national, postnational and transcultural identities. Museum and Society, 1(1), 1-16. Retirado de https://journals.le.ac.uk/ojs1/index.php/mas/article/view/3/50

Marins, P. C. G. (1999). O Parque do Ibirapuera e a construção da identidade paulista. Anais do Museu Paulista, 6-7, 9-36. https://doi.org/10.1590/S0101-47141999000100002

Martins, M. de L. (2004). Lusofonia e luso-tropicalismo: equívocos e possibilidades de dois conceitos hiper-identitários (conferência inaugural). Comunicação apresentada no X Congresso Brasileiro de Língua Portuguesa, São Paulo. Retirado de: http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/1075

Matos, P. F. de. (2006). As “côres” do império. Representações raciais no império português. Lisboa: ICS.

Medina, J. (2000). Gilberto Freyre contestado: o lusotropicalismo criticado nas colónias portuguesas como alibi colonial do salazarismo. Revista USP, 45, 48-61. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i45p48-61

MHN, Museu Histórico Nacional. (2008). Plano museológico. Rio de Janeiro: Arquivo Institucional MHN.

MHN, Museu Histórico Nacional. (2013). National Historical Museum: 90 years of history. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional.

Mirzoeff, N. (2017). Empty the musem, decolonize the curriculum, open theory. The Nordic Journal of Aesthetics, 25(53), 6-22. https://doi.org/10.7146/nja.v25i53.26403

Monteiro, N. & Pinto, A. C. (2000). Mitos culturais e identidade nacional portuguesa. In A. C. Pinto (Ed.), Portugal contemporâneo (pp. 232-245). Lisboa: D. Quixote.

Moura, C. (1988). Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Editora Ática.

Moutinho, M. (1982). A etnologia colonial portuguesa e o Estado Novo. In F. P. Santos et al. (Org.), O fascismo em Portugal. Actas do colóquio realizado na Faculdade de Letras de Lisboa em Março de 1980 (pp. 415-442). Lisboa: A Regra do Jogo.

Nascimento, A. d. (1978). O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Oliveira, L. L. (1990). A questão nacional na Primeira República. São Paulo, Brasília: Brasiliense CNPQ.

Pallares-Burke, M. L. (2005). Gilberto Freyre: um vitoriano nos trópicos. São Paulo: Unesp.

Pallares-Burke, M. L. (2012). Gilberto Freyre and Brazilian self-perception. In F. Bethencourt & A. Pearce (Eds.), Racism and ethnic relations in the Portuguese-speaking world (pp. 113-132). Oxford: Oxford University Press for the British Academy.

Peralta, E. (2017). Lisboa e a memória do império. Património, museus e espaço público. Lisboa: Outro Modo, Le Monde diplomatique.

Pereira, R. M. (2006). Conhecer para dominar: o desenvolvimento do conhecimento antropológico na política colonial portuguesa em Moçambique, 1926-1959. Tese de Doutoramento, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal.

Pevsner, N. (1976). A history of building types. Londres: Thames and Hudson.

Rosas, F. (2001). O salazarismo e o homem novo: ensaio sobre o Estado Novo e a questão do totalitarismo. Análise Social, 35(157), 1031-1054. Retirado de https://www.jstor.org/stable/41011481

Sandell, R. (2007). Museums, prejudice, and the reframing of difference. Abingdon: Routledge.

Sansone, L. (2003). Blackness without ethnicity: constructing race in Brazil. Londres: Palgrave.

Santos, B. de S. (2002). Between prospero and caliban: colonialism, postcolonialism, and inter-identity. Luso-Brazilian Review, 39(2), 9-43. https://doi.org/10.3368/lbr.39.2.9

Santos, M. de S. (2006). A escrita do passado em museus históricos. Rio de Janeiro: Garamond.

Schwarcz, L. (1993). O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870/1930). São Paulo: Companhia das Letras.

Schwarcz, L. & Starling, H. (2015). Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras.

Silva, N. I. (2013). Museu Afro Brasil no contexto da diáspora: dimensões contra-hegemônicas das artes e culturas negras. Tese de Doutoramento, Universidade de Brasília, Brasília, Brasil.

Skidmore, T. E. (1993). Black into white: race and nationality in Brazilian thought. Durham: Duke University Press.

Sobral, J. M. (2006). Memória e identidade nacional. In M. C. Silva (Ed.), Nação e Estado: entre o local e o global. Porto: Afrontamento.

Souza, M. de S. (2009). A configuração da curadoria de arte afro-brasileia de Emanoel Araujo. Dissertação de Mestrado, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.

Telles, E. (2004). Race in another America: the significance of skin color in Brazil. Princeton: Princeton University Press.

Thomaz, O. R. (1996). Do saber colonial ao luso-tropicalismo: “raça” e” nação” nas primeiras décadas do Salazarismo. In O. R. Thomaz; M. C. Maio & R. V. Santos (Eds.), Raça, ciência e sociedade (pp. 85-106). Rio de Janeiro: Fiocruz/CCBB.

Tostes, V. (2013). Museu Histórico Nacional - de fortaleza a maior museu de história brasileira. In W. Barja (Ed.), Gestão museológica: questões teóricas e práticas (pp. 81-90). Brasília: Edições Câmara.

Vala, J. (1999). Novos racismos: perspectivas comparativas. Lisboa: Celta.

Vale de Almeida, M. (2008). Portugal’s colonial complex: from colonial lusotropicalism to postcolonial lusophony. Queen’s Postcolonial Research Forum. Belfast: Queen’s University. Retirado de http://miguelvaledealmeida.net/wp-content/uploads/2008/05/portugals-colonial-complex.pdf

##submission.downloads##

Publicado

2020-12-29

Como Citar

Abadia, L. (2020). Reconfigurações do lusotropicalismo em museus monumentais de países de língua portuguesa. Revista Lusófona De Estudos Culturais, 7(2), 33-52. https://doi.org/10.21814/rlec.3109