Objetificação da música chope no quadro da “Primeira Exposição Colonial Portuguesa” (Porto, 1934)

Autores

  • Eduardo Adolfo Lichuge Departamento de Artes, Escola de Comunicação e Artes, Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique / Departamento de Comunicação e Arte, Instituto de Etnomusicologia e de Estudos de Música e Dança, Universidade de Aveiro, Portugal https://orcid.org/0000-0003-4758-7243

DOI:

https://doi.org/10.21814/rlec.2628

Palavras-chave:

exposição, objectificação, música chope, recontextualização, Estado Novo

Resumo

O processo de objetificação cultural é selectivo, pois, implica a recontextualização de determinados objectos culturais num outro contexto diferente daquele que os gerou, atribuindo-lhes novos sentidos e significados (Handler, 1984, p. 62). No quadro da Primeira Exposição Colonial Portuguesa (Porto, 1934), esta atitude estava relacionada com os discursos de invenção do “outro”, onde as relações entre as sociedades são regidas por certas hierarquias. Mudimbe (2013, pp. 15-16) designa por colonos, aqueles que estabelecem uma região e ditam as regras; os colonizadores, aqueles que exploram um território pelo domínio da maioria local, com uma tendência para organizar e transformar zonas não europeias em construções fundamentalmente europeias. Acrescentaria no fim desta hierarquia, os colonizados, ou seja, aqueles que obedecem. No contexto da exposição colonial do Porto (1934), a música chope foi recontextualizada em Portugal, sendo-lhe atribuídos novos sentidos e significados, tornando-se em símbolo de identidade nacional portuguesa. Portanto, a música chope, durante a exposição colonial do Porto, foi transformada em práticas de rendição e submissão das comunidades moçambicanas, e os seus sentidos e significados foram reduzidos em atos de representação folclórica através de modelos performativos ocidentais e da imposição dos respectivos modelos estéticos e morais, incluindo uma comunicação vertical de cima para baixo.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

A exposição colonial do Porto (1934, 17 de julho). O Comércio do Porto. Retirado de https://arquivo.cm-gaia.pt/units-of-description/documents/245879/?q=17+de+julho+de+1934

Acto Colonial, Decreto-Lei n° 22:465, de 11 de Abril, República Portuguesa

Blanchard, P., Bancel, N., Boëtsch, G., Deroo, E. & Lemaire, S. (2008). Human zoos: science and spectacle in the age of colonial empires. Liverpool: Liverpool University Press.

Boletim Geral das Colónias (1934). [Número especial dedicado à Iª Exposição Colonial Portuguesa], X(109). Portugal: Agência Geral das Colónias.

Cabecinhas, R. & Cunha, L. (2003). Colonialismo, identidade nacional e representações do “negro”. Estudos do Século XX, 3, 157-184. Retirado de http://hdl.handle.net/1822/1791

Cairo, H. (2006). Portugal is not a small country: maps and propaganda in the Salazar regime. Geopolitics, 11(3), 367-395. https://doi.org/10.1080/14650040600767867

Carvalho, C. (2002). Ambiguous representations: power and mimesis in colonial Guinea. Etnográfica, VI(1), 93-111.

Carvalho, C. (2012). Race, gender in colonial image: representation of woman in the photo archives. Department of Anthropology/ISCTE, Lisbon. Centre for Africa Studies/ISCTE, Lisbon. (Artigo não publicado).

Cunha, L. (2001). A nação nas malhas da sua identidade: Estado Novo e a construção da identidade nacional. Porto: Afrontamento.

Embarque da companhia indígena para o Porto (1934, 25 de maio). O Comércio do Porto. Retirado de https://arquivo.cm-gaia.pt/units-of-description/documents/245826/?q=25+de+maio+de+1934

Exposição colonial do Porto (1934, 16 de junho). O Comércio do Porto. Retirado de https://arquivo.cm-gaia.pt/units-of-description/documents/245848/?q=245848

Exposição Colonial Portuguesa. (1934). O livro da Exposição /​[1a. Exposição Colonial Portuguesa, Porto, 1934]. (s.l.): A Exposição.

Galvão, H. (1934). Álbum comemorativo da primeira exposição colonial portuguesa (1934). Porto: Litografia Nacional.

Handler, R. (1984). On sociocultural discontinuity: nationalism and cultural objectification in Quebec. Current Anthropology, 25(1), 55-57. https://doi.org/10.1086/203081

Karp, I. (1991). Other cultures in museum perspective. In I. Karp & S. D. Lavine (Eds.), Exhibiting cultures: the poetics and politics of museum display (pp. 11-25). Londres: Smithsonian Institution Press.

Karp, I. & Lavine, S. D. (1991). Exhibiting cultures: the poetics and politics of museum display. Londres: Smithsonian Institution Press.

Júnior, T. (1934). As aptidões musicais dos indígenas de Moçambique. Lourenço Marques: Imprensa Nacional.

Junod, H. P. (1939). Os indígenas de Moçambique no séc. XVI e começo do séc.XVII, segundo os antigos documentos portugueses da época dos descobrimentos. Documentário Trimestral, (17), 5-35.

Marques, J. B. (1943). Estudos do folclore tsonga. Lisboa: Ministério das colónias. Divisão de Publicações e Biblioteca.

Medeiros, A. (2003). Primeira exposição colonial portuguesa (1934): representação etnográfica e cultura popular moderna. In S. El-Shawan Castelo Branco & J. F. Branco (Eds.), Vozes do povo: a folclorização em Portugal (pp.155-168) Oeiras: Etnográfica.

Moraña, M., Dussel, E. & Jáuregui, C. (Eds.) (2008). Coloniality at large: Latin America and the postcolonial debate. Londres: Duke University Press.

Moreira, M. J. (1934). A 1ª exposição colonial portuguesa: o grande certame do Porto. Boletim Geral das Colónias, X (103), 76-82.

Mudimbe, V. (2013). A invenção de África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento. Luanda: Edições Pedago.

Munguambe, D. A. (2000). A música chope. Maputo: Promédia.

Noa, F. (2002). Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária. Lisboa: Caminho Editora.

Na exposição colonial: Moçambique e Índia já tem representação (1934, 29 de maio). O Comércio do Porto.

Notícias de Moçambique: companhia indígena (1934, 18 de abril). O Comércio do Porto.

Paradiso, R. & Bonnici, T. (2013). Objetificação e outremização em “Is there nowhere else where we can meet?” de Nadine Gordimer. Acta Scientiarum. Language and Culture, 35(1), 17-24. https://doi.org/10.4025/actascilangcult.v35i1.12256

Pestana, M.R. (2012). A música ou as duas faces de Jano: conhecimento, inquietação e crise em processos de controlo e subjugação do “outro”. Universidade de Aveiro/INET-md. (Artigo não publicado).

Santos, B. S. (2007). Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia dos saberes. Revista Crítica de Ciências Sociais, 78, (3) 46. https://doi.org/10.1590/S0101-33002007000300004

Séren, M. do C. (2001). A porta do meio: a Exposição Colonial de 1934: fotografias da casa Alvão. Porto: Centro Português de Fotografia.

Serra, F. (2020, 21 de setembro). Visões do império, a 1ª exposição colonial portuguesa de 1934 e alguns dos seus álbuns [Post em blogue]. Retirado de https://www.buala.org/pt/a-ler/visoes-do-imperio-a-1-exposicao-colonial-portuguesa-de-1934-e-alguns-dos-seus-albuns

##submission.downloads##

Publicado

2020-12-29

Como Citar

Lichuge, E. A. (2020). Objetificação da música chope no quadro da “Primeira Exposição Colonial Portuguesa” (Porto, 1934). Revista Lusófona De Estudos Culturais, 7(2), 73-91. https://doi.org/10.21814/rlec.2628