Fotografias em Diálogo: Migração na Fronteira México–EUA, Memória Visual e Iluminações do Passado
DOI:
https://doi.org/10.21814/rlec.7029Palavras-chave:
fronteira México–EUA, memória, migrações, fotografia e montagem, campos de concentraçãoResumo
Neste artigo, considerando a fotografia como meio de registo cultural capaz de revelar complexidades, investigo a representação da migração da fronteira México–Estados Unidos da América (EUA) nas fotografias de Monica Lozano. A partir da ideia das fotografias como meios de memória, proponho analisar tais fotografias através de exercícios de montagem, articulando-as com imagens dos campos de concentração da Alemanha nazi, não para estabelecer uma equivalência histórica entre acontecimentos, mas para explicitar como certas formas visuais de desumanização, contenção e violência podem reativar, no presente, uma memória transcultural da violência, do desamparo. Interessa refletir sobre o que as montagens revelam e permitem pensar através da plasticidade das imagens acerca da crise migratória na fronteira México–EUA e pelas aproximações e afastamentos das imagens dos campos. Na primeira parte do ensaio, são abordados os referenciais teóricos e metodológicos que estabelecem a base das análises fotográficas, nomeadamente a materialidade e a transculturalidade da memória e a montagem entre imagens. Na segunda, por meio das montagens, investigo as fotografias de Lozano nas obras Concertina (Lozano, 2024), Come Hell or High Water (Lozano, 2023) e Hugs Not Walls (Lozano, s.d.). Proponho um mosaico de imagens que permite pensar que as fotografias de Lozano evocam a memória transcultural dos campos de concentração, fazendo ressoar, sem estabelecer equivalência histórica, traços visuais de autoritarismo, suspensão e violência. Na terceira, analiso em detalhes quatro montagens que pensam pontes entre o passado e o presente, identificando ressonâncias visuais entre formas de vulnerabilização, violência e desumanização historicamente distintas, sem equiparar a especificidade do Holocausto à crise migratória contemporânea. Concluo que as correspondências e sobrevivências das imagens favorecem uma espécie de ativismo da memória, conectando passado e presente e iluminando a questão migratória.
Downloads
Referências
Ahmed, S. (2004). The cultural politics of emotion. Edinburgh University Press.
Ahmed, S. (2010). Happy objects. In M. Gregg & G. J. Seigworth (Eds.), The affect theory reader (pp. 29–51). Duke University Press.
Akerman, C. (Realizadora). (2002). De l’autre côté [Filme]. AMIP.
Anderson, B. (2005). Comunidades imaginadas. Reflexões sobre a origem e a expansão do nacionalismo (C. Mira, Trad.). Edições 70. (Trabalho original publicado 1983)
Anzaldúa, G. (1987). Borderlands: The new mestiza = La frontera. Aunt Lute Books.
Arendt, H. (2013). Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal (J. R. Siqueira, Trad.). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado 1963)
Assmann, A. (2011). Espaços da recordação: Formas e transformações da memória cultural (P. Soethe, Trad.). Editora da Unicamp. (Trabalho original publicado em 1999)
Assmann, A. (2014). Transnational memories. European Review, 22(4), 546–556. https://doi.org/10.1017/S1062798714000337
Assmann, A., & Conrad, S. (Eds.). (2010). Memory in a global age: Discourses, practices and trajectories. Palgrave Macmillan. https://doi.org/10.1057/9780230283367
Barroso, E. P., Estrada, R., & Toldy, T. (2020). Imagens e poder: Encenação, rasura e pintura. Comunicação e Sociedade, 38, 221–242. https://doi.org/10.17231/comsoc.38(2020).2451
Barthes, R. (2022). A câmara clara (M. Torres, Trad.). Edições 70. (Trabalho original publicado 1980)
Benjamin, W. (2017). A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In J. Barrento (Ed.; Trad.), Estética e sociologia da arte (pp. 207–242). Autêntica Editora. (Trabalho original publicado 1935)
Benjamin, W. (2020). Sobre o conceito de história: Edição crítica (A. Müller, Trad.). Alameda Casa Editorial Ltda. (Trabalho original publicado 1940)
Botelho, L. O. M. S. (2012). Walter Benjamin e as imagens da história: Possibilidades de uma crítica social a partir da arte. PÓLEMOS – Revista de Estudantes de Filosofia da Universidade de Brasília, 1(1), 104–122. https://doi.org/10.26512/pl.v1i1.11485
Brown, W. (2010). Walled states, waning sovereignty. Zone Books.
Butler, J. (2024). Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto? (S. T. N. Lamarão & A. M. Cunha, Trads.; 8.ª ed.). Editora Civilização Brasileira. (Trabalho original publicado 2009)
Contrera, F., Mariano, K. L. P., & Menezes, R. G. (2022). Retórica da ameaça e securitização: A política migratória dos Estados Unidos na administração Trump. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 37(108), Artigo e3710802. https://doi.org/10.1590/3710802/2022
Corrêa, M. R. D., & Moreira, A. (2023). As sobrevivências da imagem na História da Arte por Warburg e Didi-Huberman. Atas XIV Encontro de História da Arte, 17, 22–34. https://doi.org/10.20396/eha.17.2023.11680
Didi-Huberman, G. (2013). A imagem sobrevivente: História e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg (V. Ribeiro, Trad.). Contraponto. (Trabalho original publicado 2002)
Didi-Huberman, G. (2015). Diante do tempo: História da arte e anacronismo das imagens (V. Casa Nova & M. Arbex, Trads.). Editora UFMG. (Trabalho original publicado 2000)
Didi-Huberman, G. (2020). Imagens apesar de tudo (V. Brito & J. P. Cachopo, Trads.). Editora 34. (Trabalho original publicado 2012)
Didi-Huberman, G. (2021). O que vemos, o que nos olha (P. Neves, Trad.; 2.ª ed.). Editora 34. (Trabalho original publicado 1992)
Erll, A. (2011a). Memory in culture. Palgrave Macmillan UK. https://doi.org/10.1057/9780230321670
Erll, A. (2011b). Traumatic pasts, literary afterlives, and transcultural memory: New directions of literary and media memory studies. Journal of Aesthetics & Culture, 3(1), Artigo 7186. https://doi.org/10.3402/jac.v3i0.7186
Erll, A. (2011c). Travelling memory. Parallax, 17(4), 4–18. https://doi.org/10.1080/13534645.2011.605570
Ferreira, H. (2017). Entrevista com Sandra Barrilaro. “A fotografia é uma ferramenta fundamental para o ativismo”. Comunicação e Sociedade, 32, 479–486. https://doi.org/10.17231/comsoc.32(2017).2773
Girard, R. (2018). O bode expiatório (I. Storniolo, Trad.). Editora Paulus. (Trabalho original publicado 1982)
Gutman, Y., & Wüstenberg, J. (Eds.). (2023). The Routledge handbook of memory activism. Taylor & Francis.
Haesbaert, R. (2011). O mito da desterritorialização: Do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Bertrand Brasil. (Trabalho original publicado em 2004)
Löwy, M. (2005). Walter Benjamin: Aviso de incêndio; uma leitura das teses “Sobre o conceito de história” (W. N. C. Brant, Trad.). Boitempo. (Trabalho original publicado em 2001)
Lozano, M. (s.d.). Hugs not walls [Série fotográfica]. Retirado em 29 de novembro de 2025, de https://www.monicalozano.com/series/hugs-not-walls
Lozano, M. (2023, 8 de maio). Come hell or high water [Série fotográfica]. Retirado em 29 de novembro de 2025, de https://www.monicalozano.com/series/come-hell-or-high-water
Lozano, M. (2024). Concertina [Série fotográfica]. Retirado em 29 de novembro de 2025, de https://www.monicalozano.com/series/concertina
Lozano-Hemmer, R. (2019). Border tuner/Sintonizador fronterizo [Instalação interativa]. https://www.lozano-hemmer.com/border_tuner__sintonizador_fronterizo.php
Luiselli, V. (2019). Lost children archive. 4th Estate.
Merrill, S., & Rigney, A. (2024). Remembering activism: Means and ends. Memory Studies, 17(5), 997–1003. https://doi.org/10.1177/17506980241262390
Mirzoeff, N. (2023). An introduction to visual culture (3.ª ed.). Routledge. (Trabalho original publicado em 1999)
Rigney, A. (2018). Remembering hope: Transnational activism beyond the traumatic. Memory Studies, 11(3), 368–380. https://doi.org/10.1177/1750698018771869
Rothberg, M. (2009). Multidirectional memory: Remembering the holocaust in the age of decolonization. Stanford University Press. https://doi.org/10.1515/9780804783330
Sarmiento, É. (2021). A captura dos corpos descartáveis nas fronteiras. As migrações forçadas, as políticas estadunidenses e a América Latina. Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, 10(20), 410–431. https://doi.org/10.30612/rmufgd.v10i20.14450
Sontag, S. (2024). Diante da dor dos outros (R. Figueiredo, Trad., 2.ª ed.). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 2003)
Sontag, S. (2024). Ensaios sobre fotografia (J. A. Furtado, Trad.). Quetzal Editores. (Trabalho original publicado em 1977)
Souto, M. (2020). Constelações fílmicas: Um método comparatista no cinema. Galáxia – Revista Interdisciplinar de Comunicação e Cultura, (45), 153–165. https://doi.org/10.1590/1982-25532020344673
U.S. Customs and Border Protection. (2024, 22 de outubro). Nationwide encounters. https://www.cbp.gov/newsroom/stats/nationwide-encounters-fy2024
Warburg, A. (2010). Atlas mnemosyne (M. Warnke, C. Brinker, & F. Checa Cremades, Orgs.; J. C. Mielke, Trad.). Akal. (Trabalho original publicado em 1929)
Warburg, A. (2021). História de fantasma para gente grande: Escritos, esboços e conferências (L. Waizbort, Org.; L. B. Bárbara, Trad.). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 2010)
Downloads
Publicado
Edição
Secção
Licença
Direitos de Autor (c) 2026 Isabela Vieira Bertho

Este trabalho encontra-se publicado com a Licença Internacional Creative Commons Atribuição 4.0.
Os autores são titulares dos direitos de autor, concedendo à revista o direito de primeira publicação. O trabalho é licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.


