Os Fantasmas da Nação: Ativismo Efémero e Política das Comemorações na Espanha Pós-Colonial

Autores

  • Emiliano Abad Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal

DOI:

https://doi.org/10.21814/rlec.7595

Palavras-chave:

património decolonial, antimonumentos/contramonumentos, ativismo efémero, memória colonial espanhola, política das comemorações

Resumo

Este artigo analisa de que modo as intervenções decoloniais podem perturbar os regimes temporais e epistémicos que produzem e legitimam o património colonial. Com base nos estudos críticos do património, na teoria decolonial e nos estudos da memória, defende-se que os conflitos atuais em torno dos monumentos não constituem meras disputas sobre a representação histórica, mas antes, lutas pela soberania temporal. O argumento desenvolve-se a partir de dois estudos de caso interligados, em Madrid (Espanha). Em primeiro lugar, analisa-se o complexo de memória imperial da cidade, com particular incidência no Monumento a la Hispanidad (Monumento à Hispanidade) e na paisagem simbólica mais ampla que envolve o Museo de América (Museu da América), onde as narrativas coloniais e franquistas continuam a reforçar-se mutuamente no tecido urbano democrático. Em segundo lugar, examina-se a intervenção anónima realizada a 1 de janeiro de 2023, quando ativistas empalaram uma réplica da cabeça de Francisco Franco na baioneta da recém-inaugurada Estatua del Legionario (Estátua do Legionário). Em vez de exigirem a destruição do monumento, a intervenção suspendeu temporariamente a sua autoridade comemorativa, expondo as genealogias coloniais e as continuidades fascistas inscritas no património público oficial de Espanha.
A análise adota uma abordagem qualitativa, interdisciplinar e comparativa. Propõe-se que estas intervenções políticas sejam entendidas como práticas de perturbação temporal, capazes de abrir brechas frágeis, mas significativas, nos regimes hegemónicos da memória. Embora não possam, por si só, produzir uma transformação estrutural, estas intervenções alargam o horizonte da imaginação política, ao restabelecerem ligações entre contramemórias de luta e resistência que foram invisibilizadas, esquecidas ou desligadas umas das outras. O seu potencial democrático reside na capacidade de ampliar o campo de ressonâncias através do qual o passado pode ser narrado, contestado e desnaturalizado. O artigo conclui que a descolonização do património exige ir além dos debates sobre preservação, remoção ou ressignificação, avançando para uma análise crítica das estruturas materiais, epistémicas e temporais através das quais o poder colonial continua a moldar o presente e, com ele, o futuro.

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Biografia do Autor

  • Emiliano Abad, Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal

    Emiliano Abad é investigador pós-doutoral na Universidade de Coimbra, onde desenvolve o seu trabalho no âmbito do projeto CONCILIARE: Confidently Changing Colonial Heritage (European Research Executive Agency; ref. 101132582; HORIZON-CL2-2023-2027). É doutorado em História Contemporânea pela Universidad Autónoma de Madrid e foi investigador visitante na University of Cambridge e na Université Paris-Sorbonne. A sua investigação tem incidido sobre a historiografia, os estudos culturais e a viragem ontológica, bem como sobre a identidade, o património, o pós-colonialismo, a história pública e a transmissão da memória. Entre os trabalhos que ilustram a sua produção académica, destacam-se os artigos “El ‘Síndrome Nagasaki’: Museos, Poscolonialismo y Luchas Subalternas” (Síndrome Nagasaki: Museus, Pós-colonialismo e Lutas Subalternas; Kamchatka, 2025) and “¿Quién Quiere un Museo? Memorias, Conflictos e Identidades en un Mundo Poscolonial” (Quem Quer um Museu? Memórias, Conflitos e Identidades num Mundo Pós-colonial; Hispania Nova, 2023). É também codiretor do projeto Cartografías Coloniales: Restos, Paisajes y Monumentos del Imperialismo Español (https://cartografiascoloniales.webflow.io/).

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Publicado

2026-11-04

Como Citar

Os Fantasmas da Nação: Ativismo Efémero e Política das Comemorações na Espanha Pós-Colonial. (2026). Revista Lusófona de Estudos Culturais, 13(2), e026016. https://doi.org/10.21814/rlec.7595