Chamada de Trabalhos | Vol. 14, N.º 1 | Diásporas, Mobilidades e Culturas | De 30 de setembro a 3 de dezembro de 2026

2026-09-30

Editores: Isabel Macedo (CECS, Universidade do Minho, Portugal), Victor Barros (Centro ALGORITMI, Universidade do Minho, Portugal) & Rosana Baeninger (Universidade Estadual de Campinas, Brasil)

 

Nas últimas décadas, as migrações internacionais, as diásporas e as múltiplas formas de mobilidade e imobilidade humana tornaram-se centrais na reconfiguração das sociedades contemporâneas. Longe de corresponderem a movimentos livres e homogéneos, estes processos são produzidos por regimes políticos, económicos, jurídicos e tecnológicos que distribuem desigualmente o direito de circular, permanecer e pertencer. Envolvem a deslocação de pessoas, mas também a circulação — e a interdição — de saberes, práticas culturais, memórias, afetos, imaginários e formas de pertença.

No campo dos estudos culturais, as mobilidades constituem um observatório privilegiado das relações entre cultura, poder e diferença. Permitem interrogar como pessoas e comunidades negociam identidades, constroem memórias e disputam representações em contextos atravessados por fronteiras, hierarquias raciais, de classe, de género e de cidadania.

Esta proposta desloca o foco das conexões transnacionais em si mesmas para as condições desiguais que tornam certas mobilidades possíveis, desejáveis e visíveis, enquanto outras são impedidas, criminalizadas ou forçadas (Araújo et al., 2026; Cabecinhas et al., 2026). As diásporas são aqui entendidas como formações históricas marcadas pelo colonialismo, pela escravatura, pelo trabalho, pelo exílio e pela resistência. Nesta perspetiva, a mobilidade académica, as diásporas científicas e a internacionalização do ensino superior são também examinadas à luz das desigualdades no acesso a recursos, vistos, línguas de conhecimento e circuitos de legitimação.

A chamada “viragem das mobilidades” nas ciências sociais representou uma mudança de paradigma: em vez de tomar territórios, sociedades e identidades como unidades fixas, passou a analisar as relações entre movimentos, redes, infraestruturas e ancoragens (Sheller & Urry, 2006; Urry, 2007). O desenvolvimento crítico deste paradigma chama, contudo, a atenção para a inseparabilidade entre mobilidade e imobilidade e para os regimes de mobilidade que classificam pessoas, autorizam ou bloqueiam deslocações e distribuem de forma assimétrica riscos, custos e oportunidades (Glick Schiller & Salazar, 2013; Sheller, 2018). Interessa, portanto, compreender quem pode mover-se, em que condições, quem é obrigado a mover-se ou a permanecer e como essas experiências são narradas e contestadas.

Nos espaços atravessados pela língua portuguesa, as mobilidades contemporâneas não podem ser dissociadas das histórias do colonialismo, da escravatura, das deslocações forçadas, da apropriação de territórios e saberes, das políticas de assimilação e das lutas anticoloniais. Esta perspetiva permite examinar tanto as continuidades das hierarquias coloniais (Mignolo & Walsh, 2018; Quijano, 2000), como as práticas de resistência, tradução, solidariedade e criação desenvolvidas por sujeitos e comunidades em movimento (Correia Borges et al., 2025; Nardini & Macedo, 2025).

 

Objetivo do Número Temático

Este número temático pretende reunir contribuições originais que analisem criticamente as relações entre diásporas, regimes de mobilidade e produção cultural nos espaços de língua portuguesa. Privilegiam-se abordagens interdisciplinares capazes de articular as escalas biográficas, locais, nacionais, transnacionais e digitais.

Procura-se compreender como mobilidades voluntárias, condicionadas e forçadas — e as imobilidades que lhes são constitutivas — produzem identidades, memórias, representações, práticas culturais e circuitos de conhecimento. Interessa analisar as infraestruturas e instituições que governam esses movimentos; as violências materiais, epistémicas e simbólicas que os atravessam; e as estratégias de resistência, cuidado, solidariedade e criação com que sujeitos diaspóricos contestam fronteiras e imaginam outras formas de pertença.

 

Temas de Interesse

Serão particularmente bem-vindas contribuições que articulem cultura, poder e desigualdade, incluindo os seguintes temas:

  • Diásporas, famílias, deslocações forçadas, trabalho e produção cultural;
  • Regimes de mobilidade, fronteiras, vistos, detenção e deportação;
  • Imobilidades, espera, confinamento e direito à permanência;
  • Racismo, colonialidade, violência e hierarquias de cidadania;
  • Memória, património, arquivo e narrativas migratórias;
  • Media, plataformas digitais e disputas pela representação das migrações;
  • Mobilidade académica, diásporas científicas e desigualdades na circulação de saberes;
  • Interseccionalidades de raça, classe, género, sexualidade, geração e estatuto jurídico;
  • Políticas culturais, linguísticas, científicas e educativas em contextos migratórios;
  • Resistência, ativismo, cuidado, solidariedade e participação política transnacional;
  • Arte, literatura, cinema, música e outras expressões culturais das diásporas.

 

Referências

Araújo, E., Schrooten, M., & Barros, C. (2026). Vidas transnacionais: Cultura, vulnerabilidade e cuidados além-fronteiras. Revista Lusófona de Estudos Culturais, 13(1), Artigo e026011. https://doi.org/10.21814/rlec.7476

Cabecinhas, R., Lins, L., & Macedo, I. (Eds.). (2026). Migrações e comunicação na era planetária: Debates e ações. CECS/UMinho Editora. https://doi.org/10.21814/uminho.ed.196

Correia Borges, G., Simões, C., & Posch, P. (2025). A diáspora digital lusófona e a presença das culturas negras nos média: Um estudo a partir de entrevista aos fundadores da BANTUMEN. Revista Comunicando, 14(2), Artigo e025025. https://doi.org/10.58050/comunicando.v14i2.470

Glick Schiller, N., & Salazar, N. B. (2013). Regimes of mobility across the globe. Journal of Ethnic and Migration Studies, 39(2), 183–200. https://doi.org/10.1080/1369183X.2013.723253

Mignolo, W. D., & Walsh, C. E. (2018). On decoloniality: Concepts, analytics, praxis. Duke University Press.

Nardini, A., & Macedo, I. (2025). “A luta continua” do Projeto Prétu de Xullaji: Uma análise do vídeo-manifesto como narrativa de resistência política. E-Revista de Estudos Interculturais, (13), 1–30. https://doi.org/10.34630/e-rei.vi13.6319

Quijano, A. (2000). Coloniality of power, Eurocentrism, and Latin America. Nepantla: Views from South, 1(3), 533–580.

Sheller, M. (2018). Mobility justice: The politics of movement in an age of extremes. Verso.

Sheller, M., & Urry, J. (2006). The new mobilities paradigm. Environment and Planning A: Economy and Space, 38(2), 207–226. https://doi.org/10.1068/a37268

Urry, J. (2007). Mobilities. Polity Press.

 

Período de Submissão de Propostas (Manuscrito Completo)

De 30 de setembro a 3 de dezembro 2026

 

LÍNGUA

Os artigos podem ser submetidos em inglês ou português. Os artigos selecionados para publicação serão traduzidos para português ou inglês, respetivamente, devendo ser publicados integralmente nos dois idiomas.

 

EDIÇÃO E SUBMISSÃO

A Revista Lusófona de Estudos Culturais é uma revista académica de acesso livre, funcionando de acordo com exigentes padrões do sistema de revisão de pares e opera num processo de dupla revisão cega. Cada trabalho submetido será distribuído a dois revisores previamente convidados a avaliá-lo, de acordo com a qualidade académica, originalidade e relevância para os objetivos e âmbito da temático desta edição da revista.

Os originais deverão ser submetidos através do site da revista (https://www.rlec.pt/). Se está a aceder à Revista Lusófona de Estudos Culturais pela primeira vez, deve registar-se para poder submeter o seu artigo (registe-se aqui).

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